O Estado de S. Paulo, n. 46617, 05/06/2021. Metrópole, p. A26

Amazônia tem recorde de desmate pelo 3º mês seguido

Ana Paula Niederauer


Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgados ontem mostram que o desmatamento na Amazônia Legal em maio foi o maior registrado desde 2016, quando a atual série histórica teve início. É o terceiro mês seguido de recorde de destruição da floresta em 2021.

Em 28 dias, a região atingiu a marca de 1.180 km² desmatados, um aumento de 41% em relação ao mesmo mês de 2020. Desde o início da série histórica, com a operação do satélite Deter-b, é a primeira vez que o número ultrapassa 1 mil km² para esse mês.

Segundo o Inpe, no acumulado desde agosto, vem caindo rápido a diferença entre a área recorde de alertas do ano passado e a deste ano: em janeiro o desmatamento em 2021 era 21% menor que em 2020. Agora a diferença é de 8%, e ainda pode cair mais.

Em nota, o Observatório do Clima afirma que “o dado é preocupante, porque o mês de maio marca o início da estação seca, quando a devastação se intensifica, em grande parte da Região Amazônica”. “A permanecer a tendência nos próximos dois meses, a taxa oficial de desmatamento de 2021 (medida de agosto a julho) poderá terminar com uma inédita quarta alta consecutiva.”

Em abril, o desmatamento cresceu 42% em relação ao mesmo mês do ano passado. Foram 581 km² até o dia 29, ante 407 km² em abril de 2020. Os dados apontam que, na prática, foram perdidos 58 mil hectares de floresta, o equivalente a cerca de 58 mil campos de futebol.

Responsabilidade. Questionado pela reportagem sobre os índices de desmatamento, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, delegou a responsabilidade pelo controle ao vice-presidente Hamilton Mourão, alegando que, até abril, ainda estava em vigor a chamada Garantia de Lei de da Ordem (GLO), que enviou militares à Amazônia para apoiar o combate ao desmatamento.

“Abril ainda estava em vigor a GLO sob o comando do vicepresidente. Peço encaminhar a ele os questionamentos”, declarou. A reportagem questionou a vice-presidência. E não houve posicionamento a respeito até as 18 horas.

Para Suely Araújo, ex-presidente do Ibama e especialista sênior em políticas públicas da organização Observatório do Clima, os números do sistema Deter de abril, com o maior valor desde 2015, refletem a ineficácia do governo atual no controle do desmatamento.