O Globo, n. 31490, 25/10/2019. Sociedade, p. 27

Salles insinua culpa do Greenpeace, mas recua

Alice Cravo 
Johanns Eller
Vinicius Sassine


Em mais um dia em que o óleo atingiu outro ponto turístico nordestino —a Praia de Canoa Quebrada, no Ceará—, com voluntários que tentam recolher o produto relatando dor de cabeça e enjoo após contato com o material e um estudo comprovando que os peixes estão contaminados, o presidente Jair Bolsonaro disse, durante sua viagem à China, que o derrame foi um “ato terrorista”.

Ele também criticou a ONG Greenpeace, afirmando que ela “não traz nada de bom ao país”. Mais cedo, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, insinuou que a organização estaria ligada ao derramamento. Após ser questionado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia, acabou alterando o teor de sua fala.

“Tem umas coincidências na vida né...Parece que o navio do #greenpixe estava justamente navegando em águas internacionais, em frente ao litoral brasileiro bem na época do derramamento de óleo venezuelano...”, escreveu Salles no Twitter, na tarde de ontem.

O tuíte gerou repercussão elevou Rodrigo Maia a questionar o ministro, também pela rede social. “Estamos esperando uma posição oficial do Ministério do Meio Ambiente”, escreveu.

Salles explicou a Maia o que queria dizer: “Presidente, o navio do Greenpeace confirma que navegou pela costa do Brasil na época do aparecimento do óleo venezuelano, e assim como seus membros em terra, não se prontificou a ajudar.” Maia agradeceu a resposta, mas disse que o ministro havia feito uma “ilação desnecessária”.

O Greenpeace afirmou, em nota, que a insinuação de Salles era “uma mentira para criar uma cortina de fumaça na tentativa de esconder a incapacidade” do ministro em lidar com a crise. “É bom lembrar que isso vem de alguém conhecido por mentir que estudava em Yale e ser condenado na Justiça por fraude ambiental”, dizia ainda o documento.

Na busca por um responsável pelo vazamento, a Marinha descobriu que será preciso ampliar o período analisado. Novas análises químicas mostram que o óleo que aportou nas praias permaneceu mais tempo na água do que se sabia até agora. Diante dessa constatação, os investigadores ampliaram a quantidade de navios buscados.

Até então, o foco estava em 30 embarcações de dez países que navegaram na altura da costa nordestina, numa distância de 800 quilômetros, entre 1º de agosto e 1º de setembro. Um novo pente-fino será feito, em busca de navios com as mesmas características e que trafegaram pela área no mês de julho. A expectativa é que mais 30 navios sejam investigados.

Mais vítimas

As manchas de óleo chegaram a um dos principais destinos turísticos do litoral cearense: a Praia de Canoa Quebrada, no município de Aracati. Segundo a prefeitura local, uma ação emergencial já retirou cerca de 700 kg da substância. A tragédia do vazamento já contaminou 233 localidades em todos os estados do Nordeste.

Voluntários que tentam limpar as praias relataram efeitos do contato com o material. Ao menos 17 pessoas deram entrada em um hospital de São José da Coroa Grande, em Pernambuco, com dor de cabeça, enjoo, vômitos, erupções e pontos vermelhos na pele.

O coordenador da Defesa Civil da cidade, Ivan Aguiar, participou da limpeza, passou male precisou ser socorrido.

— No começo, tivemos que atuar sem equipamentos de proteção. Senti muitas cólicas abdominais e náuseas aponto de ter que ir para o hospital.

Diante desses relatos, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, pediu aos voluntários que evitem o uso de substâncias tóxicas para retirar o óleo da pele e utilizem equipamentos de proteção.

— As pessoas procuram as unidades de saúde e dizem que retiraram o óleo com benzina, gasolina, querosene e outras substâncias mais tóxicas do que o próprio óleo. Oide a lé lava rapele com sabão, ou usar óleo de cozinha ou óleo mineral para a retirada do produto.

Outro alerta para a saúde vem em relação ao consumo de peixes e frutos do mar. Pesquisa feita pelo Instituto de Biologia da Universidade da Bahia (UFBA) examinou cerca de 30 animais marinhos das Praia do Forte, Itacimirim e Guarajuba, e constatou que todos estavam contaminados.

O diretor do Instituto de Biologia da UFBA, Francisco Kelmo, que comanda o estudo avisa:

— Evite comer animais que vieram de praia contaminadas. Os animais filtram a água para retirar oxigênio ou alimentação e o óleo é absorvido pelo organismo. Eles não necessariamente morrerão por conta disso. As substâncias podem se alojarem seu corpo e ficara liporanos, contaminando toda a cadeia alimentar.