O Estado de S. Paulo, n. 46890, 05/03/2020. Internacional, p. A17

Otan rejeita zona de exclusão aérea que poderia ampliar guerra


 

A Otan rejeitou ontem os pedidos de criação de uma zona de exclusão aérea na Ucrânia. O secretário-geral da aliança atlântica, Jens Stoltenberg, assegurou que a organização não terá aviões operando na Ucrânia, nem tropas em território ucraniano. “Os aliados concordaram que não deveríamos ter aeronaves sobre o espaço aéreo da Ucrânia ou tropas em território ucraniano”, disse Stoltenberg.

Segundo ele, “a única maneira de implementar uma zona de exclusão aérea na Ucrânia” seria enviando aviões de combate da Otan, que teriam de derrubar aviões russos que operam na Ucrânia. “Acreditamos que, se fizermos isso, vamos acabar tendo uma guerra total na Europa, envolvendo muitos outros países e causando muito mais sofrimento humano.”

O presidente ucraniano, Volodmir Zelenski, lamentou a decisão da Otan. “Hoje, a liderança da aliança deu luz verde para a continuação do bombardeio de cidades ucranianas, recusando-se a estabelecer uma zona de exclusão aérea”, afirmou Zelenski, em mensagem de vídeo.

Temor. EUA e Europa temem um envolvimento direto contra tropas russas. Por isso, até agora, o máximo que fizeram foi intensificar o envio de armas e de equipamento militar para a Ucrânia. Os holandeses despacharam lançadores de foguetes. Os estonianos, mísseis antitanque Javelin.

Os poloneses e os letões, mísseis terra-ar Stinger. Os checos, metralhadoras, fuzis, pistolas e munição. Mesmo países neutros, como Suécia e Finlândia, estão enviando armas. E a Alemanha, que evitava esse papel, mandou para a Ucrânia Stingers e lançadores de foguetes.

Ao todo, cerca de 20 países estão canalizando armas para a Ucrânia para combater os russos e armar uma insurgência. Ao mesmo tempo, a Otan está movendo equipamento militar e até 22 mil soldados a mais para Estados-membros que fazem fronteira com Rússia e Belarus. A invasão da Ucrânia, a maior ameaça à segurança europeia das últimas décadas, uniu os países do continente.

“A segurança e a defesa europeias evoluíram nos últimos seis dias do que nas últimas duas décadas”, afirmou Ursula von der Leyen, presidente do braço executivo da União Europeia. É improvável, no entanto, que o armamento europeu faça alguma diferença no campo de batalha ucraniano. A preocupação é que a estratégia encoraje uma guerra mais ampla e uma retaliação de Putin.

Ameaça. O Kremlin vê a Otan comprometida em ameaçar ou mesmo destruir a Rússia por meio de seu apoio à Ucrânia, após fazer um alerta nuclear para lembrar à Europa e aos EUA dos riscos de uma interferência. As duas últimas guerras mundiais começaram em razão de conflitos menores, e a proximidade da Otan aumenta o perigo de atrair outras partes para um conflito de maneiras inesperadas.

Stoltenberg voltou a falar sobre o assunto na terça-feira, ao visitar uma base aérea polonesa. “A guerra de Putin afeta a todos nós e os aliados da Otan sempre estarão juntos para defender e proteger uns aos outros”, disse. “Nosso compromisso com o Artigo 5.º, nossa cláusula de defesa coletiva, é firme. Não deve haver espaço para erros de cálculo ou malentendidos.”

O secretário-geral da Otan garantiu que os países da aliança farão o que for preciso para “defender cada centímetro do território da Otan”.

Por enquanto, a luta está na Ucrânia. Embora a Otan e a União Europeia tenham deixado claro que seus soldados não lutariam contra a Rússia em território ucraniano, os Estados-membros estão ativamente engajados em ajudar os ucranianos a se defenderem.

O armamento ocidental tem entrado na Ucrânia em quantidades relativamente grandes, mas não reveladas. E a velocidade é essencial à medida que a invasão russa prossegue e enquanto a fronteira da Ucrânia com a Polônia permanece aberta. / NYT