O Estado de S. Paulo, n. 46161, 06/03/2020. Política, p. A5

Doria e Witzel articulam aliança no Rio
Pedro Venceslau 


 

Potenciais candidatos à Presidência da República em 2022, os governadores de São Paulo, João Doria (PSDB), e do Rio, Wilson Witzel (PSC), podem subir no mesmo palanque na disputa pela capital fluminense. A ideia da aliança, em fase de negociação, é criar uma alternativa a um candidato apoiado pelo presidente Jair Bolsonaro na cidade. Os dois governadores foram eleitos em 2018 se apoiando no bolsonarismo.

A aproximação entre Doria e Witzel foi costurada por dois ex-aliados de Bolsonaro: o empresário Paulo Marinho, presidente do PSDB no Rio, e o ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência Gustavo Bebianno, lançado ontem pelo partido como pré-candidato à prefeitura do Rio. O grupo se encontrou durante o carnaval para discutir o assunto. Interessa aos dois governadores que a família Bolsonaro fique isolada na disputa pela capital fluminense.

O presidente tem dito que não pretende interferir nas eleições municipais. O partido que pretende criar, o Aliança pelo Brasil, não deverá obter registro da Justiça Eleitoral a tempo de participar da eleição. Embora não tenha declarado apoio explícito a ninguém, Bolsonaro participou, desde dezembro, de quatro agendas públicas ao lado do prefeito Marcelo Crivella (Republicanos), que tentará a reeleição, o que foi visto como um sinal de aproximação.

O núcleo mais próximo a Bolsonaro cogita lançar o deputado federal Hélio Lopes (PSL) e o deputado estadual Rodrigo Amorim (PSL), conhecido por quebrar, durante a campanha de 2018, uma placa com o nome da vereadora Marielle Franco, assassinada em março de 2018.

Doria e Witzel estão entre os 20 governadores que assinaram, em fevereiro, uma carta criticando Bolsonaro por, segundo eles, não contribuir para a “evolução da democracia”. Há duas semanas, Witzel chegou a falar que Bolsonaro cometeu crime de responsabilidade, passível de punição com impeachment, por ter enviado, por WhatsApp, vídeos que estão sendo usados para convocar protestos contra o Congresso Nacional, como revelou o site BR Político, do Grupo Estado.

Doria comentou a aproximação com Witzel ontem, durante entrevista coletiva para anunciar a pré-candidatura de Bebianno. “Falei hoje (ontem) pela manhã com o governador Witzel. Temos um bom entendimento de manter um campo democrático liberal. Esse entendimento vai nos colocar em boas conversas. O governador está definindo uma candidatura do seu partido, mas estamos próximos. Os entendimentos podem avançar”, afirmou o tucano.

Procurado, Witzel não se posicionou. O presidente do PSC, Pastor Everaldo, afirmou que o partido deve ter candidatura própria. “Até 6 de agosto, data limite para as convenções partidárias, muita água passará por debaixo das pontes”, disse em nota.

Substituição. O PSDB havia anunciado que a ex-secretária de Cultura da capital fluminense, Mariana Ribas, seria candidata à prefeitura do Rio, mas recuou por pressão de Marinho e Bebianno. “Houve uma mudança de posições no gramado”, disse Bebianno. Mariana Ribas deve assumir um cargo no Sebrae de São Paulo.

No evento de ontem, Bebianno adotou um discurso duro contra Bolsonaro e esse deve ser o tom de sua pré-campanha. “Bolsonaro ignora o Rio de Janeiro, tanto o Estado quanto a cidade. Ele enxerga no Rio uma fonte de problemas e prefere se manter a distância”, disse o exministro da Secretaria-Geral.

Ao falar sobre o cenário das eleições municipais, Bebianno, que foi presidente nacional do PSL, disse que Bolsonaro “destruiu” o partido. “Como disse o (senador) Major Olímpio, ele morava sozinho e fugiu de casa. Destruiu o PSL e ficou sem partido. Está na calçada. Acho muito difícil o Aliança sair do papel até a eleição”, afirmou.

Ainda segundo o pré-candidato, o presidente adota atitudes inexplicáveis. “Ele ouve pessoas beligerantes que acirram a beligerância dele. Bolsonaro arruinou

sua base na Câmara.”

Bebianno relatou que, em 2017, trabalhou “intensamente” para filiar o vice-presidente Hamilton Mourão ao partido para que o general disputasse o governo do Rio em 2018, mas Bolsonaro vetou o movimento.

Crivella também foi alvo do advogado. “A cidade do Rio está abandonada. Temos um prefeito que parece não gostar da cidade. Não é um carioca legítimo.”

Na mesma linha, Paulo Marinho disse que Crivella “não tem vocação” para ser prefeito do Rio. “Ele viveu na África e em Brasília. Nem conhece o Rio de Janeiro”, afirmou o empresário, numa referência ao trabalho de Crivella como missionário em países africanos. / COLABOROU PAULA REVERBEL   

‘Campo democrático’

“Temos um bom entendimento de manter um campo democrático liberal. O governador (Witzel) está definindo uma candidatura do seu partido, mas estamos próximos. Os entendimentos podem avançar.”

João Doria (PSDB)

Governador de São Paulo

Para Lembrar

Dupla teve apoio de presidente

João Doria e Wilson Witzel se beneficiaram da “onda” conservadora nas eleições de 2018 que levou Jair Bolsonaro à Presidência e usaram discurso duro na segurança pública para se eleger governadores dos dois principais Estados do País. Doria chegou a vestir camisa onde se lia a expressão “Bolsodoria”, formada pela fusão do seu nome com o do então presidenciável do PSL. Já Witzel, neófito na política, cresceu nas pesquisas após declaração de apoio da família Bolsonaro à sua candidatura. Após a eleição, ambos demonstraram interesse em se candidatar à Presidência em 2022 e passaram a se afastar de Bolsonaro.