O Globo, n. 32040, 27/04/2021, País, p. 5

 

A desinformação sobre Covid-19 na mira da CPI
Rayanderson Guerra
27/04/2021

 

 

 

Uma das acusações esperadas pelo governo federal na CPI da Covid é de que o presidente Jair Bolsonaro e integrantes do governo divulgaram mensagens falsas sobre o uso de remédios sem eficácia e fizeram ataques a governadores e prefeitos que adotaram medidas de isolamento social. O histórico de disseminação de fake news sobre a pandemia do novo coronavírus pode atingir deputados bolsonaristas, ministros, assessores e o próprio presidente e sua família, que compartilham, desde o ano passado, informações falsas sobre o vírus.

As plataformas de redes sociais, como Twitter, Facebook e YouTube, já adotaram medidas de redução de alcance ou mesmo remoção de conteúdo publicado pelo presidente e por aliados.

Um dos alvos foi um dos filhos do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). No mês passado, o Twitter colocou um alerta na publicação do deputado que falava sobre o lockdown, medida para tentr conter a Covid-19. O post diz que lockdown é o “oposto de distanciamento social” e que, pelo método, “as pessoas são condenadas a ficarem confinadas em casa, aumentando a proliferação do vírus.”

O aviso da empresa diz que uma postagem tem a circulação na rede social suspensa quando alguma informação publicada viola as regras da plataforma com conteúdos enganosos ou contestados sobre o novo coronavírus, por exemplo. A plataforma, no entanto, “determinou que pode ser de interesse público que esse Tweet continue acessível”.

Bolsonaro também teve algumas publicações marcadas como falsas e excluídas nas redes. No Instagram, o presidente compartilhou um post do deputado estadual do Ceará André Fernandes (PSL) no qual há um comparativo entre os óbitos por doenças respiratórias em 2019, ano em que o novo coronavírus ainda não circulava, e 2020, já com a pandemia. Mesmo marcado como falso, o post não foi retirado do ar pelo Instagram.

Na semana passada, o YouTube removeu quatro vídeos do canal de Bolsonaro por violação de suas políticas de desinformação médica sobre a Covid-19. Uma publicação do presidente já havia sido removida da plataforma no último dia 12.

Todos os vídeos excluídos do YouTube até o momento são registros das transmissões ao vivo de Bolsonaro, feitas semanalmente, entre junho de 2020 e 11 de fevereiro de 2021 e continham defesas de remédios sem eficácia contra a Covid-19, como hidroxicloroquina e ivermectina.

No Twitter, Bolsonaro também teve um post limitado. A empresa colocou uma marcação em postagem que menciona um estudo que comprovaria a eficácia do tratamento precoce para evitar a evolução da Covid-19.

Além do presidente, dois deputados bolsonaristas tiveram as publicações marcadas pelo Twitter: Carla Zambelli (PSL-SP) e Daniel Silveira (PSL-RJ) por “publicação de informações enganosas e potencialmente prejudiciais”.

Outros bolsonaristas também estão ente os disseminadores de fake news. O deputado Osmar Terra (MDBRS), que é médico; a presidente da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara, Bia Kicis (PSL-DF), e o deputado estadual de São Paulo Gil Diniz (PSL ) compartilharam informações falsas sobre tratamento precoce e medidas de isolamento social.

Em abril do ano passado, Terra, que é ex-ministro da Cidadania, publicou em suas redes sociais que a Holanda estava “indo para o fim da epidemia”, apesar de, segundo ele, não ter feito quarentena nem ter fechado o comércio. O post acompanha um gráfico que, supostamente, mostra a queda no número de casos.

Apesar de ter tomado medidas menos rigorosas do que outros países da Europa, a Holanda mantinha restrições de funcionamento para o comércio.

Já Bia Kicis publicou que que o Senado da Itália tinha aprovado o uso do “tratamento precoce” contra a Covid-19. A deputada afirmou ainda que os medicamentos seriam fornecidos pelo governo aos contaminados. As informações, no entanto, são falsas.

MINISTÉRIO ADVERTIDO

Uma postagem do perfil oficial do Ministério da Saúde do dia 13 de janeiro também foi advertida pelo Twitter por violar regras da plataforma sobre o compartilhamento de “informações enganosas”. Na publicação, a pasta recomenda que o paciente peça o “tratamento precoce” ao médico ao apresentar os primeiros sintomas. Os medicamentos usados no tratamento precoce são a cloroquina, hidroxicloroquina e a ivermectina, que estudos provaram serem ineficazes.