O globo, n. 31269, 18/03/2019. País, p. 4

 

Áudios reveladores

Aguirre Talento

18/03/2019

 

 

Acervo de doleiro detalha encontros para pagamentos a operadores de políticos

Um acervo de 750 mil da corretora de valores Hoya, responsável por entregas de propina para a Odebrecht e para a Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Rio de Janeiro(Fetranspor ), poderá ajudara comprovar pagamentos em dinheiro vivo para operadores de PT, PSDB, MDB e diversos outros partidos implicados na Lava-Jato.

O material, obtido pelo GLOBO, revela detalhes da complexa sistemática de pagamentos indevidos apolíticos: de segunda a sexta, a Odebrecht transmtia à corretora Hoya uma relação com endereços para entrega de dinheiro, nome do recebedor e a senha correspondente. Funcionários de transportadoras de valores eram acionados pela Hoya para proceder com os pagamentos, sempre informando a ocorrência de problemas ou situações atípicas.

Os áudios foram entregues à Polícia Federal pelo doleiro Álvaro José Novis, dono da Hoya, em seu acordo de delação premiada, e estão sendo analisados pelos peritos para servir de prova em dezenas de investigações em andamento na Lava-Jato. Até o momento, poucas gravações tinham vindo a público.

Os telefonemas dos terminais da corretora Hoya eram gravados automaticamente pelo sistema da empresa, por causa de uma regra da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). São 754.291 gravações de conversas telefônicas entre 2010 e 2018, que captaram tanto as atividades lícitas como as ilícitas. Neste último caso, as provas mais volumosas e mais fortes são do ano eleitoral de 2014, quando a Odebrecht e a Fetranspor turbinaram as entregas de dinheiros para políticos.

Operador do PT, William Ali Chaim, é um dos que mais aparecem nos registros telefônicos. Ele conversou 76 vezes por telefone, entre 2014 e 2015, com Márcio José Freira do Amaral, o funcionário da Hoya responsável pelos pagamentos. Cabia a Chaim receber repasses de caixa dois da Odebrecht destinados aos serviços do marqueteiro João Santana na campanha de Dilma Rousseff em 2014. Ele foi preso na 56ª fase da Lava-Jato, deflagrada no fim do ano passado.

Márcio é o principal protagonista das ligações sobre entregas de dinheiro. Também há registros para um ex-funcionário do governo de São Paulo na gestão de Geraldo Alckmin (PSDBSP), Eduardo Castro; telefonemas para Altair Alves Pinto, apontado como recebedor de propina de Eduardo Cunha (MDB-RJ); ligações para um assessor do deputado Paulinho da Força (SDSP); e contatos com um recebedor do caixa dois da campanha de Paulo Skaf (MDB-SP), dentre outras.

Os registros de áudio complementam a delação premiada da Odebrecht. Confirmam horários, codinomes e repasses previstos nos sistemas internos de propinas da empreiteira, o Drousys e o MyWebDay.

A Fetranspor, apesar de não ter feito institucionalmente um acordo de delação, também já teve ex-integrantes que confirmaram a sistemática de pagamentos de propina a agentes públicos.

Outro lado

Procurada, a assessoria de Dilma Rousseff afirmou que ela “jamais autorizou ou tinha conhecimento do uso de recursos de caixa dois em sua campanha. Ela não conhece William Ali Chaim. Nem jamais tratou de doações via caixa dois com nenhuma pessoa”. A assessoria do PT foi procurada, mas não respondeu até a conclusão da reportagem. A defesa de Chaim não foi localizada.

Em nota, a assessoria de Alckmin afirmou: “O ex-governador não tem como comentar o assunto porque não conhece as gravações. Pode dizer, de todo modo, que não recebeu recursos de caixa dois”. Contatado pelo mesmo número usado para conversar com Márcio Amaral, Eduardo Castro afirmou ao GLOBO desconhecer os telefonemas: —Não sei do que se trata. Procurado, o advogado de Paulinho da Força, Eduardo Toledo, afirmou que não comentaria por não conhecer os autos e por não ter tido acesso ao material.

A defesa de Eduardo Cunha não respondeu. Altair Alves não retornou os telefonemas da reportagem.

A assessoria de Paulo Skaf afirmou que “todas as doações recebidas estão devidamente registradas na Justiça Eleitoral", e que “Skaf nunca pediu e nem autorizou ninguém a pedir contribuição de campanha irregular”.

A Fetranspor afirma que implantou uma nova gestão e que os fatos citados se referem à antiga administração: “A Fetranspor desenvolve atualmente uma profunda reestruturação interna, com nova política de conformidade e moderna governança”.

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Foragido, ex-Fetranspor tem vida de luxo em Portugal

18/03/2019

 

 

Criador da caixinha de propina da federação, ex-diretor José Lavouras mora em apartamento de R$ 3,5 milhões na cidade do Porto

Foragido da Operação LavaJato no Rio, o empresário José Carlos Lavouras vive uma vida de luxo em Portugal. Ele chegou a ser preso naquele país devido a uma ordem do juiz Marcelo Bretas em 2017, mas foi liberado depois e o judiciário português decidiu não extraditá-lo.

Lavouras possui dupla cidadania, brasileira e portuguesa. Nos últimos dias, foi localizado por uma equipe do “Fantástico”, da TV Globo, na cidade do Porto. Abordado pela reportagem, se calou.

Junto de Jacob Barata Filho, Lavouras comandou o Conselho da Fetranspor durante três décadas, e foi apontado pelo doleiro e delator Álvaro José Novis como o responsável pela articulação do pagamento de propinas a autoridades do Estado do Rio. Conforme as investigações do Ministério Público Federal, ele organizou uma caixinha para recolher propinas de empresários para políticos. O próprio Lavouras teria embolsado R$ 40 milhões.

Na cidade do Porto, Lavouras vive em um apartamento registrado em nome de sua mãe, na região da Boavista, uma área nobre da cidade. O imóvel de R$ 3,5 milhões possui quatro quartos. Para se deslocar pela cidade, usa carros de luxo com motorista. O mais caro custa o equivalente a R$ 300 mil.

Em Portugal, ele também mantém negócios na área de transporte e em uma empresa de água mineral. O MP português investiga a possibilidade de ele ter lavado dinheiro da corrupção no Brasil por meio dessas empresas. O advogado de Lavouras, Alexandre Lopes, disse que seu cliente não é obrigado a voltar ao país para ser “encarcerado por uma decisão ilegal”.

— Ele pode responder a todos os processos brasileiros em Portugal. A legislação assim o permite — afirmou Lopes.